Moda de Artista: Lia Chaia

Moda de Artista: Lia Chaia

2022-02-23

FERNANDA YAMAMOTO estabeleceu uma estreita relação com o universo das artes desde a sua origem. Pela própria essência da marca (o processo criativo, como pensamos o corpo e a construção da roupa), foi natural que ao longo desses anos tenhamos nos aproximado de artistas e profissionais da área, que passaram a se identificar com os nossos valores, tornando-se não apenas clientes, mas também parceiros criativos.

Um deles é Nino Cais: um artista plástico cuja obra explora o corpo, a memória da roupa, os tecidos. Sempre tive uma aproximação, direta ou indiretamente com a moda. Minha mãe sempre costurou, então desde que nasci eu vivo ao lado de uma máquina de costura. Tenho uma afinidade com este mundo e um estreitamento. E, por incrível que pareça, essas coisas acabam sempre se aproximando de mim de uma maneira natural” explica ele.

O seu profundo interesse pela marca resultou em colaborações muito bem-sucedidas, como a cenografia do nosso desfile comemorativo de dez anos no SPFW N50, além de muitas trocas e questionamentos ao longo dos últimos anos, que culminaram no MODA DE ARTISTA: Nino propôs criar diálogos entre o Ateliê FY e um artista convidado. "A gente foi se aproximando cada vez mais, e nas nossas inúmeras conversas surgiu um espaço para chegarmos em um lugar prático e plástico, realmente criando um desfecho". Nesse projeto, a roupa se torna um suporte para o trabalho do artista, uma tela em branco. Para Fernanda, “É um processo interessante e tecnicamente desafiador pensar em como usamos o nosso know-how técnico para materializar em moda as ideias que cada artista”. 

Para esta primeira edição do MODA DE ARTISTA, Nino convidou a paulistana Lia Chaia: formada em artes plásticas, a artista também estudou dança e clown. Em sua obra, traz percepções e vivências do cotidiano, como a permanente tensão entre espaço urbano, corpo e natureza, vasculhando as reações do corpo aos estímulos e rupturas do cotidiano. Um corpo que se adapta às paisagens, que cria relações com outros espaços, objetos e pessoas.

Você explora suportes variados em seu trabalho – vídeo, fotografia, performance, desenho, instalação. Como você enxerga a moda também como um vetor para trabalhar a sua obra?

A moda é muito conectada à arte, e eu trabalho muito com a ideia do corpo. Achei curioso quando me convidaram para fazer parte do Moda de Artista porque na maioria das minhas performances estou nua. Levar a minha arte para criar uma roupa foi algo novo para mim. Pensar em outro corpo, que não o meu de performer, usando essa obra pensada em conjunto com FERNANDA YAMAMOTO foi muito interessante.

Como surgiu a ideia do véu-útero?

Quando a Fernanda e o Nino me chamaram, eu já estava em processo de criação. Faço danço do ventre, e trabalho muito com a transformação da anatomia do corpo humano, aumentando, diminuindo, misturando-a com vegetação, com biologia. Naquele momento, eu estava desenvolvendo a proposta de um véu feito em voal transparente em que eu costurei a silhueta de um útero bem grande, que cobre o corpo: o véu-útero, que foi então utilizado em um vídeo-performance, em que danço nua. Levei essa ideia à equipe da marca e eles gostaram.

Como foi o processo de criação com a equipe FERNANDA YAMAMOTO?

A equipe sempre foi muito receptiva comigo. Quando eu estava falando, fazia-se um silêncio; eles realmente estavam me ouvindo! Eu trabalho muito sozinha, então foi muito bacana vivenciar a criação em conjunto, poder ver o processo do Ateliê, dialogar, aprender mesmo. Em nossa primeira conversa levantei o principal ponto que eu achava importante para nortear a criação: a ideia de movimento, leveza, transparência. Tive uma grande surpresa quando me apresentaram o primeiro resultado: não era nada daquilo que eu tinha imaginado, mas ficou excelente! Eles transformaram a ideia em algo que tem a ver com a proposta da marca, e resolveram muito bem a questão da leveza, transparência e movimento com a sobreposição dos tules. As camadas também garantiram que o útero não ficasse tão em evidência, que era também uma das minhas solicitações. 

Você já conhecia a marca?

Sim, mas foi o primeiro contato mais próximo que tive com a equipe. Além de participar dessa co-criação, fui assistir ao desfile, onde pude ver quanta gente tem envolvida no processo, e entender mais profundamente a engrenagem por trás de uma roupa.