SPFW N52: YAMA

SPFW N52: YAMA

2022-02-21

Em 2020, Fernanda Yamamoto recebeu um convite do Paulo Borges, diretor do SPFW, para participar do Regeneração, um projeto que propunha diálogos entre estilistas convidados e profissionais de outras áreas, cujo desdobramento seria uma exposição / performance dentro do calendário oficial de desfiles. “Quando Marcello Dantas, curador do projeto, me perguntou: 'O que te move nesse momento, Fernanda? Quais questões você gostaria de trazer com esse diálogo?' Sem titubear, respondi: 'Marcello, você já ouviu falar da Comunidade Yuba?' Sem dúvidas, esse era um assunto que me instigava naquele momento pandêmico que vivíamos: a vida em comunidade, o modo de conviver com os pares, de se relacionar com a terra e com as artes que Yuba traz com tanta força e no sentido mais puro, continuaram a me inspirar, mesmo já tendo realizado um desfile inspirado nela, em 2018”.

O ponto de partida desse diálogo foi o acervo de figurinos dos espetáculos de Yuba: após um minucioso levantamento de todo o material, a equipe Fernanda Yamamoto escolheu três antigos quimonos que foram usados em espetáculos de dança, teatro e música da Comunidade no início da década de 60, feitos a partir de sacos de algodão de ração de galinha. Esses quimonos foram ressignificados, recebendo interferências de bordados e aplicações de organza de seda transparentes, sem deixar de revelar a riqueza da história por trás dessas peças. A partir desse fio condutor, a equipe começou a trabalhar formas do quimono em peças de organza de seda, com inclusão de um outro tecido: o morim, que é a tela de algodão usada internamente no ateliê para estudos de criação e modelagem.

O resultado desse processo foi então apresentado em um desfile-performance ocorrido no Centro Cultural São Paulo - CCSP durante o SPFW N52, em que membros de Yuba vestiram as peças. Ao final da apresentação, elas foram despidas e penduradas nas paredes do espaço que abrigava uma exposição de objetos manufaturados pela própria Comunidade. 

Um desses membros é Aya Ohara: nascida na Comunidade Yuba, foi estudar no Japão aos 15 anos. Lá, formou-se em dança, retornou ao Brasil e decidiu morar em São Paulo para conviver com pessoas da sua área. Mesmo longe de sua cidade natal, sempre procurou levar projetos e profissionais interessantes com que cruzava para conhecer Yuba, promovendo, assim, intercâmbios de conhecimentos, workshops e oficinas. Foi assim que conheceu Fernanda Yamamoto, em 2016, dando início a uma parceria que permanece sólida até hoje.

Fernanda Yamamoto e a Comunidade Yuba têm uma parceria que já dura anos. De que forma essa relação impacta na Comunidade? 

A Fernanda e a sua equipe têm a capacidade de reinterpretar os elementos que fazem parte do dia a dia da Comunidade, apresentando um outro olhar para tudo aquilo que compõe o nosso cotidiano. Para quem nasceu em Yuba, é natural acordar, ir para a roça e  ter a arte inserida na nossa vida. O trabalho com eles vem reforçar a importância dessas atividades tão rotineiras, extraindo uma versão bela e encantadora disso tudo. 

Como foi para os membros da Comunidade ver as peças criadas artesanalmente por eles como tema central de uma exposição no Centro Cultural de São Paulo? Como aconteceu o desenrolar desse projeto?

Quando a Fernanda veio com a ideia do projeto, começamos a fazer um levantamento das peças confeccionadas desde o início da existência de Yuba. Com uma "visão estrangeira”, uma pessoa de fora, casada com um dos membros, começou a catalogar os itens, indo de casa em casa e fotografando mais de 100 objetos. Também começamos a abrir caixas com os figurinos dos espetáculos realizados ao longo de muitos anos. Foi muito emocionante ver o nome das pessoas identificado nas peças, um resgate da nossa memória. Encontramos ainda os croquis dos figurinos que o meu pai desenhava, que foram inclusive inseridos na exposição. Ver as peças do nosso cotidiano, confeccionadas com as nossas mãos dentro de um projeto expográfico tem um impacto indescritível: é a ressignificação da nossa filosofia, a reafirmação do valor da nossa cultura. Também foi muito emocionante ver os itens retornarem da exposição para o dia a dia da comunidade. O martelo que meu pai utilizava para esculpir as pedras, que antes ficava no quintal, ganhou um lugar especial na estante de casa. Esse tipo de projeto chacoalha a gente. Diz: "Olha!"

Depois do SPFW, o trabalho com a marca teve outros desdobramentos. Conte-nos sobre o tradicional espetáculo de fim de ano em Yuba.

Durante o processo de pesquisa, descobrimos que o teatro da Comunidade estava completando 60 anos em 2021. Decidimos fazer um espetáculo-surpresa em homenagem aos integrantes mais idosos. Como tema, escolhemos um conto bem simples, escrito pela minha sobrinha, sobre o Dente-de-Leão. Nele, as pétalas da flor esperam para conhecer o mundo e em determinado momento, elas partem levadas pelo vento. Depois de um tempo, uma delas sente saudade de casa e pede para o vento levá-la de volta. Em seu regresso, ela usa toda bagagem adquirida na viagem para realizar mudanças. Tempos depois, o vento retorna e nota que a pétala tinha se transformado num Dente-de-Leão de sete cores, sinalizando a esperança e a transformação. No espetáculo, as crianças representaram as pétalas, e a cena final foi interpretada por integrantes que já deixaram a Comunidade, vestindo os looks do desfile. As outras peças do figurino foram feitas sob orientação da equipe do Ateliê FY, em workshops online. 

Em que medida esses workshops agregaram, já que a Comunidade já possuía o know-how de produzir as próprias roupas?

Muitas pessoas na Comunidade são autodidatas. Nos workshops, elas aprenderam técnicas: de costura, de modelagem, de combinação de cores, de como otimizar os tecidos. Além das aulas, eles prepararam um levantamento dos materiais disponíveis no mercado para facilitar a escolha e compra. Tudo realizado de forma online, um desafio e tanto para a Comunidade!